Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Piaf



Quando fui ao cinema assistir "Piaf - Um Hino ao Amor" (La Môme/2007), dirigido por Olivier Dahan, não tinha grandes expectativas. Em primeiro lugar, por não ter conhecimentos sobre a vida da cantora francesa Edith Piaf, em segundo, por desconhecer outras obras do diretor e, por último, o fato de só ter visto atuações menores da atriz. Meu único referencial eram as críticas positivas que acompanharam a divulgação do filme. Talvez por não conhecer os fatos, não notei falhas ou algum momento importante que tenha sido “esquecido”. Na minha visão o diretor quis destacar uma trajetória de vida pontuada por perdas e tragédias, estas que tiveram seu contraponto na carreira artística. Ao ser descoberta por Louis Leplée (interpretado por Gerard Depardieu) Piaf terá em sua música e nos palcos a redenção. Não quero ficar aqui adjetivando a atuação de Marion Cotillard, quem viu o filme sabe do que estou falando, a impressão que se tinha é que ela estava realmente cantando as músicas de Piaf. Mas o filme não é excelente apenas por esse único elemento, obviamente que a excelência se deu por uma combinação de fatores, como por exemplo a montagem do filme, a forma não linear de mostrar a vida da cantora trouxe um outro impacto que seria bem diferente se a opção fosse seguir a cronologia dos acontecimentos, até porque alguns não foram bem explicados, foram "passados por cima", por serem entendidos enquanto não importantes (ou tão importantes) para serem contados nessa biografia. Independente de qualquer falha, "Piaf - Um Hino ao Amor" é uma obra de arte que deve ser apreciada.

link para o trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=uzEJ7NV_g98&feature=related

link de uma entrevista com Marion Cotillard após ter recebido o Oscar: http://www.youtube.com/watch?v=OSvlSRBAd7s

Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

O baixio das bestas (2007)



O filme brasileiro “Baixio das Bestas” (2007) do diretor Cláudio Assis (“Amarelo Manga”, 2003) é mais um exemplo do cinema brasileiro de qualidade. A história discorre sobre a menina Auxiliadora (Mariah Teixeira), que explorada por seu avô (Fernando Teixeira) é obrigada a se despir algumas noites para que alguns a “observem”. Em uma dessas noites o menino Cícero (Caio Blat) a conhece - mesmo que de longe – e se “apaixona”.

Personagens como os interpretados por Caio Blat e Matheus Nachtergaele contrastam com o cotidiano rural dos trabalhadores de cana da região nordestina. O primeiro sintetiza o comportamento de uma juventude alienada, abastada, sem compromisso consigo e com outros, convivendo num universo onde ações violentas são banais. Everardo (Nachtergaele) é o mais velho, o que “comanda” o grupo tanto nas “sessões” de drogas em um cinema abandonado, como nas noitadas em um prostíbulo.

O estilo ‘cru’ de Assis (já percebido em Amarelo Manga) incomoda, mas de uma forma positiva. “Baixio das Bestas” é visceral, em nenhum momento se mostra um filme de entretenimento, e tem a intenção, no meu entendimento, de chamar a atenção para situações que todos conhecemos, mas que, muitas vezes, por não corresponder à nossa realidade cotidiana, simplesmente ignoramos.

A cena inicial é genial, pois partindo das imagens de uma usina de açúcar desativada o texto fala sobre o tempo. Acredito que essa noção perpassa todo o filme de formas diferentes devido às vivências se darem de maneira variada para cada um dos personagens. Talvez para personagens como Cícero, Everardo e Seu Heitor o tempo é igual, suas vidas não tem mais um sentido podendo ser uma justificativa para suas ações inescrupulosas. Já para Auxiliadora, o tempo a mata lentamente, sua inocência se esvai a cada noite, como um exemplo de que o tempo destrói tudo(?).

A incomunicabilidade de uma Babel contemporânea?


Ao término da exibição dos créditos sentia-me como que imobilizada, o impacto da obra de Alejandro Inarritu me deixou sem forças. Mais uma vez o diretor demonstra ser um dos mais talentosos de nossa época, alguém que realmente tem algo para dizer.

Assim como Amores Brutos (Amores Perros, 2000) e 21 Gramas (21 Grams, 2003), Babel relata três histórias ambientadas no México, Marrocos e Japão. A primeira é sobre uma mexicana que mora nos EUA e cuida de duas crianças, cujos pais viajam pelo Marrocos, e a outra história é sobre uma japonesa surda-muda e sua relação com o pai e com o mundo, e como esse ultimo se relaciona com ela.

O filme discute as diferenças, tanto as existentes e notáveis, assim como aquelas criadas socialmente, preconceitos que são concebidos por questões que nem mesmo deveriam ser relevadas, já que todos somos humanos, certo? No momento em que o personagem de Cate Blanchett é atingido por uma bala, os repórteres americanos concluem: - Foi um ato terrorista, já que estavam no Marrocos. Incrível, pois na realidade foi o ato banal de uma criança, que sem nenhuma intencionalidade acaba por protagonizar uma fatalidade, que marcará tanto a sua família como a da vítima.

Acredito que Inarritu não propõe uma discussão política, ele vai além. Discute, sim, a falta de comunicação. Não com referência aos diferentes idiomas existentes, mas da incomunicabilidade entre aqueles que convivem junto, e que falam “a mesma língua”. O casal americano, interpretado por Brad Pitt e Cate, demonstra claramente isso, inclusive protagonizam uma das cenas mais bonitas do filme… mas não vou aqui tirar o prazer daqueles que ainda não viram o filme.

A história da japonesa foi a que mais me tocou. Os problemas de comunicação na vida dessa menina são mais claros, já que poucos a entendem, mas o problema se encontra na medida em que muitos nem o desejam. As crises da adolescência dela aumentam devido ao preconceito, muitas vezes a impedindo de se relacionar com os outros, chegando a extremos para obter algum tipo de atenção.

Babel é forte, intenso e visceral. Em meio a tantas superficialidades cinematográficas, o diretor debate problemáticas inerentes ao humano como poucos. Se você não viu, recomendo!

O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno)




O ano é 1944, o país é a Espanha. Ao norte de Navarro ainda há lutas relacionadas à Guerra Civil - terminada em 1939 - onde grupos revolucionários se escondem nas montanhas, fugindo dos militares fascistas que querem exterminá-los. É nesse contexto que se desenvolve o “Labirinto do Fauno”, filme dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro (Hellboy), uma produção conjunta de Espanha, México e EUA, de 2006.

O filme conta a história de Ofelia, uma menina que gosta muito de ler, principalmente contos de fadas, e que após o casamento de sua mãe, Carmem (Ariadna Gil) com o Capitão Vidal (Sergi López), se vê obrigada a acompanhar o padrasto nas jornadas em busca dos revolucionários. Capitão Vidal é um homem frio que passa por cima de qualquer coisa para obter seu objetivo final.

Ao chegar no local onde está seu padrasto, Ofelia logo descobre um labirinto localizado próximo à residência da família. Fascinada pelos mistérios lá guardados, a menina decide explorar o labirinto, e a partir desse momento fantasia e realidade passam a confundir-se, mesclando-se e interferindo mutuamente uma na outra.

Arrisco-me a dizer que há muito tempo não se faz nada igual, com uma junção de poética, magia, violência e principalmente realidade e ficção. O ponto em que as duas se encontram e se separam é a questão, mas no caso de Labirinto do Fauno, a linha é tênue para a personagem de Ivana Baquero, que interpreta a menina Ofelia.

Os três Oscars técnicos que a película recebeu foram merecidos, porém, a obra não é apenas um filme com estética perfeita, é mais que isso. A temática proposta para discussão é profunda, as cenas de violência perturbam o espectador, marcadas por uma fotografia com cores fortes, que apresenta seres estranhos e fantásticos, que por se mesclarem à realidade acabam se tornam reais. No meu entender esse é o poder do cinema: transformar ficção em realidade e vive-versa, tanto para nós espectadores, como para os personagens criados por Guillermo del Toro.

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texto da tati, postado por luizyoung pra começar a coluna. aos poucos tudo vai indo por aqui.